Do portão, já escutamos e respiramos inspiradas. Um canto de vozes que entoam rezo, que nos convocam a quietude e a presença. Manu vem nos receber, abraço caloroso e receptivo. Na casa dos fundos, uma morada cheia de magia e cristais. Lá, cinco mulheres, negras, cantoras, autoras. Com seus tambores, bateria, violino, violão, patangome, gungas…
Numa conversa regada a improvisos musicais e muitos sorrisos escutamos histórias desse Coletivo de política poética. A Manu nos contou que o coletivo surgiu através do convite da Eneida: “foi para tirar nossas composições da gaveta e nos fortalecermos. Compositoras todas éramos, todas escrevíamos e tínhamos coisas guardadas”. E em 2015, com a aprovação em um edital, várias parcerias e uma força de vontade de fazer acontecer, surgiu o espetáculo cênico musical N.E.G.R.A. Mais tarde surgiu o espetáculo ERAS. E hoje o Coletivo segue com os dois espetáculos circulando e apresentando por vários lugares.
Como nos contou a Nath, vários trechos dos espetáculos são “ textos da vida da gente, uma recriação da nossa realidade.” “ Falam da atemporalidade. Dessas vozes que atravessam o tempo. Das nossas ancestrais mais longínquas, desde a África até as mais próximas nossas avós, mães, a gente, nossos filhos” (Júlia). “Inicialmente não pensamos em falar sobre feminismo e questões raciais, mas naturalmente isso aconteceu porque nossa vida gira em torno disso. Viver já é um ato político.” (Elisa)
São histórias de se ser mulher e de se ser mulher negra. Histórias de representatividade, que inspiram e que se refletem. “É pra essa mulher negra que tá vendo o espetáculo se identificar, porque falamos de coisas que vivemos no dia a dia. É poetizar a vivência da mulher negra. ”(Elisa). O trabalho da Negras Autoras ativa memórias, sensações, reflexões, empatia, crescimento em que vê e escuta e também nas artistas. Manu, Elisa, Nath, Júlia e Viviane, mulheres que expressam no corpo e na voz as forças que atravessam o tempo, cantam música que fortalece, que ecoa e transforma.
É dia. Por trás das hastes curvas e verdes de uma grade na janela, vê-se as cinco integrantes do Coletivo Negras autoras, formando uma roda de música, em um quintal. Elisa tem cabelos curtos, crespos e escuros. Não é possível ver suas roupas. Julia tem cabelos bem cacheados, e está com um vestido longo de alças, com estampa vinho, azul e branca. Viviane tem cabelos crespos, presos no alto da cabeça, e usa um vestido laranja com estampa tie dye. Manu tem cabelos crespos com pontas mais claras, usa blusa preta e saia com estampa floral. Nath tem dreads no cabelo e está vestida com blusa branca sem mangas e calça com estampa floral. Ela toca um tambor mineiro com baquetas.
No quintal, as cinco mulheres do Coletivo estão em roda. À esquerda, no fundo, está Elisa, de pé, com um grande tambor mineiro pendurado por uma alça no ombro esquerdo. Ela usa um vestido tomara que caia, que combina diversas estampas. Mais próxima está Manu, que está descalça e sentada em uma cadeira, tocando um atabaque com as mãos. Bem no centro e de costas, está Julia, também descalça, que abre os braços, segurando um agogô em uma das mãos e uma baqueta na outra. À direita, e mais próxima, está Viviane, de pé, com um tambor mineiro nas mãos. Nath está mais ao fundo, também de pé. Ao lado dela, há um violino sobre uma cadeira.
Ainda em roda, as mulheres tocam e cantam. A mão de Manu segura um pandeiro. De costas, Viviane sacode com as mãos um patangome de metal gasto. Julia canta. Elisa canta e bate as baquetas na superfície do tambor. Ao fundo, há um muro baixo, e acima dele, um guarda-corpo com pilares de concreto. Plantas se espalham entre os pilares e acima do guarda-corpo.
Foto próxima de Nath, tocando o violino. Ela apóia a base do pequeno instrumento entre o queixo e o ombro esquerdo. Com a mão esquerda, ela pressiona as cordas no braço do violino e, com a mão direita, desliza o arco de maneira perpendicular sobre as cordas. Os dreads nos cabelos de Nath são mais claros nas pontas. Ela tem um piercing em forma de argola no meio do nariz, e usa um longo colar amarelo.
Agora sentadas, as mulheres estão em roda, entre duas janelas de grades verdes, e à frente de uma porta aberta, com um gradeado de losangos, também verde. Elisa sorri e segura uma baqueta de pé entre suas pernas. O tambor está no chão à sua frente. Julia, agora de óculos estilo gatinho, segura na mão um livro rosa com o desenho de uma mulher na capa. Nath toca um violão, apoiando o instrumento sobre as pernas cruzadas. Viviane olha para as outras. Ela usa um colar curto de búzios brancos, e tem tatuagens no braço esquerdo.
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